A trágica morte do candidato do PSB à Presidência da República,
Eduardo Campos, nesta quarta-feira (13) causa um terremoto político
inédito na corrida presidencial e traz um grau de incerteza muito forte a
poucos dias do início da propaganda no rádio e TV, considerado o ponto
real de partida da campanha eleitoral.
Qualquer cálculo político
feito tão em cima dos eventos desta manhã tem uma grande chance de
cometer erros, mas é possível vislumbrar o cenário mais provável e
tentar imaginar alguns de seus desdobramentos.
Quando a ex-senadora Marina Silva decidiu se filiar ao PSB em
outubro do ano passado, o ex-governador de Pernambuco foi muito elogiado
pela inesperada manobra política, que reforçava a candidatura do
partido à Presidência.
Por outro lado trazia a possibilidade,
remota, de ser Marina a cabeça de chapa, já que ela disputara a
Presidência em 2010, tendo quase 20 milhões de votos. Nos primeiros
meses deste ano, as pesquisas eleitorais traziam vários cenários de
candidatos, incluindo Marina. Sempre com melhor desempenho do que
Campos.
Mas com o passar do tempo ficou claro que o candidato do
PSB seria mesmo Campos. Sua aposta era se apresentar como um candidato
alternativo à polarização PT X PSDB, que vem se repetindo nas eleições
presidenciais desde 1994, defender o que ele chamava de "nova política" e
aproveitar a presença de Marina para atrair eleitores que estiveram com
ela há quatro anos.
A aposta não estava funcionando. Campos
aparecia num distante terceiro lugar da corrida liderada pela presidente
Dilma Rousseff (PT) e pelo senador Aécio Neves, do PSDB.
Para
ser justo com ele, em 2010, Marina só cresceu na reta final da campanha e
talvez isso fizesse com que Campos mantivesse um discurso otimista
sobre suas chances de vencer.
Embora o bom senso muitas vezes
não prevaleça na política, o mais sensato agora seria o PSB lançar
Marina como candidata à Presidência. E possivelmente com mais chances de
chegar ao segundo turno do que Campos teria.
Ganhando eleitores
Recuperando os ideais de sua campanha
de 2010, o clima das manifestações populares de junho de 2013 --quando
havia um grande repúdio à política tradicional--, junto com os slogans
de Campos, Marina pode emplacar com mais força do que o ex-governador a
ideia da terceira via e da "nova política".
Ela tem uma boa
chance de manter os eleitores que até agora se mostravam dispostos a
votar no pernambucano e atrair parcelas dos indecisos que talvez não
vissem nele um candidato com chances de vitória.
A esses, existe
espaço para se juntarem ainda eleitores que podem ser influenciados
pelo clima de comoção que certamente cercará a campanha por um tempo
difícil de prever.
Num primeiro momento, não é fácil prever se
Dilma ou Aécio perderiam eleitores, mas se Marina se tornar a
presidenciável do PSB e começar a crescer em cima dos indecisos e
daqueles que planejavam votar em branco ou anular seus votos, sua
candidatura ganha um impulso que pode se retroalimentar, a ponto até de
roubar eleitores dos líderes.
Para a eleição em geral, é fácil
prever a consequência disso: se ainda pudesse haver esperanças de
definição da eleição no primeiro turno, um quadro com Marina candidata
traria imediatamente a certeza da segunda rodada.
Mais
complicado é projetar o resultado do novo cenário para Aécio e Dilma. Se
Marina crescer e a dupla se mantiver mais ou menos onde está, o perigo
maior num primeiro momento parece ser para Aécio, que poderia ver em
algum momento ameaçada sua ida para um segundo turno.
Mas se
Marina vier a chegar ao segundo turno contra Dilma, diante das
circunstâncias trágicas de sua candidatura e o forte desejo de mudança
da população, talvez ela venha a ter ainda mais chances de derrotar
Dilma do que Aécio.
Negociações com a Rede
O fato de Marina ter se filiado ao
PSB apenas porque o partido que tentou criar, a Rede Sustentabilidade,
não conseguiu o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia
trazer algumas complicações. Isso porque é sabido que a ex-senadora e o
grupo que a acompanhou ao PSB pretendiam deixar o partido assim que
conseguissem tornar legal a Rede.
Esse movimento não era
contraditório com uma eventual vitória de Campos, já que nesse caso a
diferença seria apenas que haveria mais um partido na coligação
governista.
Mas a tragédia que foi a morte de Campos e as
chances eleitorais de Marina abrem espaço para alguma negociação que
mude de algum modo o quadro inicial. Como por exemplo, acertar que
Marina, se eleita presidente da República, durante seu mandato
continuaria no PSB mesmo que a Rede fosse legalizada.
Nada disso
pode vir a acontecer e Marina pode continuar apenas como candidata a
vice-presidente de um outro nome do PSB ou até desistir de participar da
corrida. No limite, o próprio PSB pode decidir sair da disputa. Se
assim for, porém, seria difícil falar apenas em falta de bom senso.
Soaria mais como tolice.
Fonte: UOL
